Cinzas que salvam

CINZAS QUE SALVAM


Um dia esse povo aprende a não improvisar e a levar mais a sério a comunicação na liturgia: postura correta, leitura com expressão, respeito ao silêncio, atenção aos símbolos e sinais. Como são horríveis essas celebrações barulhentas, com gestos sem sentido, com leituras apressadas, com ritos sem vida.

Quarta-feira de cinzas é um dia muito especial para não ser levado a sério e ser preparado com carinho. Toda a riqueza da liturgia só terá seu valor se for bem preparada. Programada, ensaiada. Não é uma peça de teatro. Mas, merece o mesmo respeito. Cristo é o personagem mais importante. E o ser humano seu coadjuvante. Tudo deve ser feito para que ele sobressaia em primeiro plano.

Às vezes, em certas celebrações que participo  – ou assisto – lembro-me da crítica de Jesus: “Esse povo me louva com os lábios, mas seu coração está longe… Não multipliqueis as palavras sem necessidade…”. Hoje, na era da imagem creio que o Mestre diria: Não multipliqueis os gestos, os sinais, as imagens, sem necessidade.

Por isto, ofereço algumas sugestões, sem pretensão de ser o melhor – ou a melhor – mas com o desejo de que a Quarta-feira de Cinzas seja realmente uma experiência de encontro consigo mesmo, retomada do processo de conversão e busca de maior comunhão com Deus.

Então, vamos à prática!

Sentido litúrgico

A Quarta-feira de Cinzas é a porta de entrada da Quaresma. Com a imposição das cinzas começa oficial e solenemente o tempo de preparação para a Páscoa. Entramos no grande Templo onde se vive, de maneira mais intensa, o programa que Jesus nos propõe: oração, esmola e jejum. Nossos olhos e nosso coração estão sintonizados na Páscoa.
A oração que este tempo nos sugere vai além das simples fórmulas tão comuns em nosso cotidiano: é a oração do cego e a do publicano: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”. “Ó meu Deus, tem piedade de mim, pecador!”. Oração de súplica e de arrependimento. Oração de quem se reconhece pecador. Trata-se da oração do coração, que busca a união com Deus, através dela. Leia Lc 18,1; 21,36; 1Tess 5,17; Ef. 6,18.
O jejum também vai muito além de abstenção de alimentos. O Profeta Joel nos acusa dizendo que reduzimos a exigência divina a um simples formalismo exterior: “Rasgai vossos corações e não vossas vestes”.  Que valor tem deixar de comer carne, para substituí-la por um prato de  bacalhau que custa muito mais caro?! Joel fala de um jejum que apela para uma conversão profunda. Entender jejuar como criar um espaço, um vazio em nós para que a graça de Deus nos refaça e nos preencha. Leia Is 58,3-7; Joel 1,4; 2,15; Jonas 3,5.
A esmola não se reduz à oferta de dinheiro, alimentos, roupas e outros objetos: “Misericórdia eu quero e não vossos sacrifícios”. Deus espera que tiremos algo de nós mesmos para lhe oferecer. A oferta exterior precisa simbolizar e significar essa doação interior: tiramos algo de nós, um pedaço mesmo, para oferecer a Deus. Leia Sl. 40,6 Is 43,23 Jer 6,20 Os 6,6.
A cinza na cabeça é usada em sinal de penitência, de conversão, de luto pelo pecado. É um sinal exterior que expressa o arrependimento interior e o desejo de conversão. Reconhecemos que somos pecadores e que devemos trabalhar pela mudança de vida. A cinza na testa revela sobretudo um compromisso de viver o tempo de preparação para a Páscoa. Leia 2Sam 13,19 Est 4,1 Jó 2,8; Jon 3,6.

O Rito da Imposição das Cinzas com todo seu simbolismo nos provoca para viver o espírito quaresmal, ou seja, atitude interior, constante, permanente, preparando-nos para a Páscoa.

Sugestões para a celebração

1.Preparar um ambiente de simplicidade, sem flores, usando a cor roxa nos paramentos litúrgicos.
2.Colocar a cruz em lugar de destaque, de modo a ficar bem visível durante toda a quaresma.
3.Em razão da Campanha da Fraternidade que acontece em nível nacional, sugerimos colocar, em lugar visível, cartazes, folders, e outras imagens referentes à CF.
4.A Bíblia poderá entrar na procissão de entrada e ser colocada ao lado do presbitério; após receber as cinzas, cada fiel poderá também fazer uma inclinação diante da cruz e beijar a Bíblia.
5.Começar a celebração com as luzes semi-apagadas, se for possível, e em profundo silêncio.
6.Sugerimos iniciar a celebração com o Rito ou Ato Penitencial para dar mais sentido à imposição das cinzas, e abertura do tempo quaresmal. Com certeza ficará mais dentro do contexto, do que simplesmente colocar cinzas na cabeça das pessoas que vêm mal preparadas para a celebração e sem entender bem o sentido das cinzas. Quem sabe os cristãos deixam de fazer aquela ligação com o Carnaval!
7.As cinzas que sobrarem poderão ser levadas aos enfermos, pelos Ministros da Saúde e para as pessoas impedidas de participar da celebração. Cuide-se para que façam algum ritual introdutório, à semelhança da entrega da comunhão – uma breve leitura e oração.
8.A equipe de celebração entra com a cruz, cantando um canto penitencial – que pode ser algum da  C.F.
9.O presidente da celebração faz a saudação à assembléia e, em seguida, prepara a comunidade para o sentido da litúrgico da celebração desse dia.
10.A primeira leitura e o evangelho poderão servir de inspiração para o rito penitencial, assim como o salmo 50, de resposta.
11.Na Homilia o presidente da celebração faz uma breve exortação, ajudando a assembléia no exame de consciência.     As leituras apresentam um programa bem concreto e prático para a reflexão individual e comunitária:
a)“Voltai para o Senhor: Ele é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”.
b)“Prescrevei o jejum sagrado… chorem e digam: ‘Perdoa, Senhor, a teu povo, e não deixes que esta  tua herança sofra infâmia e que as nações a dominem’”.
c)”Ficai atentos… quando deres esmola… não toques a trombeta… quando orardes… não rezeis em pé nas esquinas e sinagogas… quando jejuardes… não fiqueis com o rosto triste…”  – O que significa isso hoje? Traduza para a realidade de sua comunidade!
d)“Ficai atentos…  quando deres esmola…  não saiba a tua mão direita o que faz a tua esquerda…  quando orardes… entra no teu quarto e fecha a porta…  quando jejuardes… perfuma a cabeça e lava o rosto…” – O que significa isso hoje? Traduza para a realidade de sua comunidade!
e)O que tenho feito para combater o individualismo e o consumismo? Tenho dedicado mais tempo e densidade à oração, tanto pessoal quanto comunitária? Procuro tomar uma atitude contra o consumismo, assumindo o jejum do autodomínio sobre a alimentação, sobre as palavras e os sentimentos?
f)Que colaboração tenho dado para que aconteça a minha transfiguração pessoal e a transformação da sociedade, procurando me esforçar para praticar o jejum verdadeiro, segundo Isaías: “desatar os laços da maldade, desamarrar as correias do jugo, dar liberdade aos que estavam encurvados…” ? (Is 58,6)
12.Após um momento de silêncio total, cantar um dos cânticos sugeridos pela manual da Campanha da Fraternidade motivando o reconhecimento dos pecados e o arrependimento.
13.Sugerimos colocar uma fonte de água corrente, no presbitério, para  que esse símbolo da Campanha da Fraternidade possa ser abençoado e aspergido sobre o povo após a oração do perdão ou absolvição. Pode-se aproveitar também a Pia Batismal, se esta estiver no presbitério.
14.Durante a aspersão pode-se cantar o canto “Água Viva”, “Lavai-me, Senhor, lavai-me”, “Aspergi-me e serei limpo” ou algo semelhante.
15.Como gesto concreto penitencial, pode-se entregar às pessoas, como sugestão, o seguinte programa para ser  assumido durante o tempo quaresmal:

1)Não desperdice água
2)Não utilize material poluente
3)Separe o lixo orgânico do que pode ser reciclado
4)Conserve limpos e cuidados os jardins de nosso bairro
5)Oriente as domésticas a não lavarem a calçada com a mangueira de água como se fosse vassoura
6)Não faça da calçada o banheiro de seu cão
7)Não gaste energia elétrica inutilmente
8)Eduque as crianças sobre a importância de preservar o planeta
9)Conheça os rios e córregos de sua região e conscientize as pessoas para que os mantenha limpo e com mata ciliar
10)Procure manter-se informado e informar aos outros sobre as questões ecológicas

16)Em razão da Campanha da Fraternidade que acontece e nível nacional, sugerimos colocar, em lugar visível, cartazes, folders, e outras imagens referentes à CF.
17)A liturgia da Quaresma do Ano C chama a atenção para a ternura e compaixão de Deus pelos pobres, pelos marginalizados e pecadores; insiste na conversão, no perdão e na maneira concreta de praticar a caridade e outras virtudes fundamentais da vida cristã.
18) O Setor de Liturgia da CNBB está sugerindo que as músicas do tempo da quaresma não sejam todas da Campanha da Fraternidade para não descaracterizar o espírito penitencial do tempo litúrgico ora em andamento. É interessante cantar ao menos algumas músicas, pois, as letras têm a vantagem de situar a Páscoa na realidade e na problemática de cada ano.
19)Daí o esforço para se renovar, a cada ano, os comentários, a homilia, os testemunhos e as preces. Como diz Ione Buyst “Nenhuma Páscoa é simples repetição de outra Páscoa: as situações históricas mudam. É preciso sentir a presença salvífica de Deus nos acontecimentos; ouvir seu apelo de libertação em cada realidade histórica”.
20) Enfim, é impossível preparar bem as celebrações litúrgicas do ciclo da Páscoa se não percebermos o sentido pascal de nossa vida e de nossa história.

A história ensina

Desde o século 4º, a Igreja vem se preparando para a Páscoa com 40 dias de austeridade, à semelhança da experiência vivida por Cristo no deserto. Como na antiga disciplina os domingos não eram dias de penitência nem de jejum, a quaresma somente somava 36 dias. Sendo assim, a Igreja antecipou para Quarta-feira de Cinzas para completar os 40 dias.
A Igreja assumiu a tradição do Antigo Testamento propondo como programa para o tempo quaresmal oração, esmola e jejum. Entre os séculos 4º e 10º  havia um rigor muito grande com relação aos pecadores públicos. Eles eram excluídos de participar da celebração eucarística. Vestiam uma túnica, colocavam cinzas na cabeça e eram separados da comunidade eclesial: precisavam ser reconciliados oficialmente aqueles que cometiam pecado grave de caráter público. A Cerimônia da reconciliação acontecia na 5a Feira Santa, e a da expulsão, na 4ª Feira de Cinzas.
O texto do Profeta Joel influenciou a Igreja no sentido de abrandar o rigor da disciplina: “vosso Deus é benigno e compassivo, paciente e cheio de misericórdia, inclinado a perdoar o castigo”. A partir do século 8º o rito foi tomando um caráter mais geral com a introdução de normas que permitiam a todos os cristãos receberem as cinzas como reconhecimento de nossa condição de pecadores.
Importante notar que os pecadores expulsos da assembléia continuavam assistindo as reuniões litúrgicas da Quaresma, conforme testemunha Santo Agostinho que escreveu homilias aos penitentes presentes no templo.

Hoje este sentido original da imposição das cinzas se estendeu a todos os cristãos como sinal de entrada na Quaresma e preparação para a Páscoa. Tem um sentido autenticamente penitencial que se expressa em algumas virtudes: oração, simplicidade de vida, espírito de pobreza e desapego, parcimônia no comer e no beber, cuidado com as palavras, disponibilidade de tempo para os outros, e outras virtudes penitenciais.
As Cinzas provém dos Ramos de Oliveira abençoados e usados no ano anterior, no Domingo de Ramos. É colocado na testa do cristão como gesto de humildade, arrependimento, reconhecimento dos próprios erros e, ao mesmo tempo, de muita confiança em Deus. A testa aponta para o mental, o pensamento: convida a refletir, analisar, avaliar, examinar a consciência, as atitudes de vida.
Uma vida pascal

Todas as semanas da Quaresma nasceram ao mesmo tempo: de tal forma foram hoje organizadas que em conjunto com a Oração das Horas, oferecem uma verdadeira catequese pascal. Ajudam-nos a entender que a Páscoa não é uma festa, mas uma atitude de vida, um jeito de viver: somos chamados a viver uma vida pascal, de passagem, de transfiguração.
É um esforço de todos os dias para superar o egoísmo, os vícios, o ódio, a indiferença pelos irmãos, crescendo no amor, na dedicação, na doação de nossa vida. É um trabalho perseverante para vencer as injustiças, o sistema de vida baseado na ganância, no luxo, na violência, no consumismo, no aumento do capital a qualquer custo. É positivamente se unir a outras pessoas e grupos para construir uma sociedade segundo o Coração de Deus: uma sociedade justa e fraterna, baseada na partilha, na solidariedade, no respeito a cada ser humano, no amor sem exclusão e preconceito.
O documento de Medellin lembra a situação do povo que saiu das terras do Egito, fazendo a passagem pelo Mar Vermelho, para nos dizer que é preciso viver a passagem “de condições menos humanas a condições mais humanas!

Liturgia e Comunicação

É bom lembrar de novo que a comunicação não acontece apenas através das palavras. Tudo é comunicação. A liturgia é rica em sinais, símbolos e gestos os quais merecem uma atenção especial quando se trata de preparar as cerimônias e ritos.
Por isso, chamamos a atenção para a limpeza das toalhas e vestimentas, as flores que não devem ser artificiais, a posição e cuidado com as velas, a postura e atitude dos ministros e servidores do altar, a leitura pausada e interpretativa dos textos, o acolhimento aos que chegam, o silêncio nas horas certas, a visualização das imagens, símbolos e objetos utilizados na cerimônia, a sonoridade dos instrumentos, a simplicidade dos gestos, o conteúdo das letras das músicas.
A liturgia precisa aprimorar sua comunicação para envolver as pessoas na salvação que vem de Jesus Cristo e se realiza nos gestos e palavras. Diz o documento de Puebla (922) que a liturgia por si só, por sua natureza, é comunicação.  A liturgia que não comunica, não salva. Hoje o teatro avançou e tem muito o que ensinar à liturgia.
É preciso ultrapassar os livros, rubricas e folhetos, e encarnar o momento na vida. O que gera a ação litúrgica é o próprio Deus. Deus veio ao encontro do Ser Humano e através dos gestos e palavras de Cristo, manifestou a salvação; através do gesto supremo de Cristo, sua morte e ressurreição, realiza a salvação da humanidade.
Por que as pessoas gostam desta missa, nesta igreja, com este padre, e não em outro local e comunidade?
A força comunicativa no teatro depende do diretor, do elenco, do cenarista, do iluminador, do som. O texto pode ser ótimo, mas depende dessas condições. Assim acontece na missa, nas celebrações: se a equipe de celebração “não vive o que realiza”, como diz o texto da ordenação do presbítero, a liturgia não poderá comunicar tudo aquilo que pode comunicar. Continua sendo instrumento da Graça, da Misericórdia e do Amor Salvífico de Deus, é claro, mas não atrai, não agrada, não envolve, não engaja, não compromete, no aspeto humano, sensível, emocional, como todos nós somos – e hoje muito carentes.
Essas missas com muitos gestos, músicas, instrumentos eletrônicos, falta de conteúdo e de silêncio podem atrair multidões. Mas, não passam de produtos de consumo. Precisamos encontrar o equilíbrio e a harmonia, o divino e o humano que está em cada pessoa, abrir espaço para que Deus possa agir, enquanto assumimos a mesma atitude de João Batista que se afasta para que Jesus apareça. Certas Equipes de Celebração que aparecem na mídia chamam mais a atenção sobre si do que a própria celebração.
Esse pode ser o conteúdo de reflexão e de revisão do tempo quaresmal para as Equipe de Celebração: a caminho da Páscoa também podemos nos converter e melhorar ainda mais nossa maneira de celebrar, de tratar o Mistério na Liturgia.

Texto: Côn. Luiz Carlos F. Magalhães MTb 12.450
Capa: João Costa
Impressão de Capa: Centro Kennedy
Paróquia Cristo Rei – Jardim Chapadão
Fevereiro de 2004
E-mail par.cristorei@terra.com.br
Site: www.paroquiacristorei.com.
Rua Elisiário Pires de Camargo, 240
Fone 3242.0500 – 3242.0572
CAMPINAS – S.P. – Brasil

Subsídio para o tempo da Quaresma

Esse pode ser o conteúdo de reflexão e de revisão do tempo quaresmal para as Equipe de Celebração: a caminho da Páscoa também podemos nos converter e melhorar ainda mais nossa maneira de celebrar, de tratar o Mistério na Liturgia.