Modelo de Paróquia

Padre Tiago Freitas, da Diocese de Braga, defendeu tese mostrando que “o atual modelo de paróquia não serve às necessidades de hoje. O “modelo tridentino de paróquia”, diz ele era um modelo excelente para aquela altura e deu resposta às necessidades de então. O contexto cultural era muito mais homogêneo do que o de hoje. Era uma sociedade tipicamente de campesinato, isto é, de aldeia, uma sociedade estática. Não era relevante a questão da mobilidade de transportes, da mobilidade de comunicação, e por aí adiante. Vivia segundo o imaginário de um padre para uma paróquia e para um povo. O contexto cultural de hoje é diferente e sua chave de leitura é a mobilidade: cultural, social e religiosa. Em minha tese apresento a paróquia alicerçada em quatro pilares: hospitalidade, gestação, comunicação e memória.
A HOSPITALIDADE é a capacidade de a paróquia criar condições para acolher os novos membros, independentemente do seu estilo de vida e do ponto em que estão na sua caminhada de fé. Antigamente, o contexto cultural e a paróquia eram estáticos. Hoje, sob este signo da mobilidade, é preciso estabilidade, por isso, é importante haver sempre alguém que acolha e acompanhe as pessoas.
A GESTAÇÃO é isto: antigamente a fé era algo quase hereditário. Eram os nossos avós e os nossos pais que nos introduziam na fé. Hoje em dia, os percursos são muito mais personalizados e individuais. Já não vamos só pelos nossos pais ou pelos nossos avós. Cada um é autor de seu próprio itinerário da fé. Este processo da gestação acontece num contexto de pequenos grupos e de ritmos personalizados.
A COMUNICAÇÃO tem a ver com o que o teólogo Karl Rahner dizia, e que alguns documentos do Concílio Vaticano II também o dizem, ou seja: aquilo que Deus quer é, acima de tudo. comunicar-se a si mesmo, um processo chamado de auto-comunicação. Deus comunica-se para que nós possamos entrar em comunhão com Ele, para O conhecer. Daí que faça parte do código genético da comunidade, comunicar, ou seja, anunciar, evangelizar, dizer quem é Deus, quem é Jesus Cristo, quais são os seus valores e aquilo em que acredita. Se uma comunidade deixar de comunicar será uma comunidade morta.
A MEMÓRIA entra em correspondência com o outro fenômeno cultural que existe, que é o fato de muitos dizerem que vivemos numa sociedade sem memória, onde, às vezes, nos deparamos com esta loucura de pensarmos que o mundo começa conosco, que somos os pioneiros em tudo e colocamos em causa o que está para trás. A Comunidade Cristã deve fazer a apologia da sua memória, do seu patrimônio, e imortalizar ou potencializar esta memória.
Em suma: A hospitalidade e a gestação procuram principalmente promover o crescimento dos atuais cristãos, possíveis cristãos, ou simplesmente curiosos, enquanto a comunicação e a memória estão voltadas para a maturidade. As primeiras duas, mais num contexto de pequenos grupos, e as outras duas, mais voltadas para o grande grupo, que seria a comunidade celebrativa ou a grande comunidade”.
Padre Tiago recebeu nota máxima na Pontifícia Universidade Lateranense, em Roma. Fonte: Diário do Minho, 7 de setembro de 2017.