Vozes da paixão

O Profeta dizia no exílio da Babilônia: “O Senhor me desperta cada manhã e me fala ao ouvido, para prestar atenção como discípulo” (1ª Leitura Is 50,4-7)

Como discípulos, vamos nós também atender a esse pedido, prestar atenção e escutar a instrução de nosso Mestre.

A QUEM ESCUTAR?

No relato da Paixão, vamos encontrar vários personagens. Cada um diz algo importante dentro do conjunto daquilo que o evangelista quer transmitir aos discípulos. O ensinamento não é para quem está fora, mas para os de dentro da comunidade. As vozes de cada personagem devem ressoar nos ouvidos e no coração de cada um de nós. Ouvindo todas as vozes juntas iremos captar o ensinamento nelas escondido. (Mt 26,14-27.66).

1.AS VOZES DA MULTIDÃO
Um dia aclamam hosanas a Jesus de Nazaré; no dia seguinte, diante de Pilatos deixa-se convencer pelas autoridade religiosas judaicas para pedir liberdade para o “famoso” Barrabás, preferindo a crucifixão de Jesus. Certamente as multidões não sabiam o que estavam falando. São levadas pela onda do momento e pelos gritos das lideranças. O que isso diz?

2.AS VOZES DOS DISCÍPULOS
No início todos os discípulos se preocupam com a arrumação da sala onde será celebrada a Páscoa. Aos poucos, vão se entristecendo com a hipótese de ter entre eles alguém que se colocará como o traidor. Depois, com a notícia da prisão, na hora “H”, com exceção de João, todos abandonam Jesus com medo dos judeus. É preciso escutar a voz de Judas Iscariotes que se deixou comprar por dinheiro para vender o Mestre e o entregar com um beijo. Escutar também a voz de Pedro que havia prometido morrer com Jesus, mas que o nega três vezes. O que diz isso?

3.A VOZ DE JESUS
Ele dá ordens claras e precisas: encontrar um jumentinho, preparar a Ceia Pascal, indicar quem o haverá de traí-lo e o convite para a oração no Jardim das Oliveiras. Para não deixar os discípulos perdidos na hora dos acontecimento, tem a paciência de prepará-los, anunciando sua prisão e sua morte. Na Ceia Pascal, fortalece a fé dos discípulos oferecendo pão e vinho, sinais sacramentais de sua vida, toda ela, doação, entrega e serviço pela salvação da humanidade e para criar um mundo novo. Tem o cuidado de prepará-los também para o batismo de sangue pelo qual todos eles deveriam passar, aceitando o sofrimento como participação na obra da redenção. Será que entendemos a mensagem da Eucaristia?

4.O SILÊNCIO DE JESUS
Diante de Pilatos, Jesus se mantém calado. É um silêncio que fala! Não há nada para dizer diante de um sistema que quer ter a última palavra sobre a vida humana. O silêncio tem um sentido de protesto contra a injustiça cometida pelos tribunais onde se jogam “cartas marcadas”. As únicas palavras de Jesus são proferidas no alto da cruz: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Foi o grito supremo, mas sem revolta, daquele homem desfigurado, cheio de feridas e acabado, mas cheio de confiança no sentido que Deus pode dar ao sofrimento! Grito mais forte ainda quando assume sua morte e entrega ao Pai o seu espírito. Aprendemos com Jesus a calar?

5.O SILÊNCIO DA PEDRA

No interior da sepultura reina absoluto silêncio. É o silêncio de Deus que tanto nos incomoda! Diante da realidade de fome, miséria, violência, destruição da natureza, perguntamos angustiados: “Por que Deus não intervém?” Deus tem a resposta e apresenta para todo o ser humano. Uma voz fala na consciência e no coração. Muitos não acreditam no silêncio da pedra que rolou e cruzam os braços. Os guardas tentam esconder o fato dizendo que “roubaram o corpo de Jesus”. Mas, na madrugada do domingo, a pedra rola da sepultura e um clarão ilumina a terra toda que viva nas trevas.

CRUZ E GLÓRIA
MORTE E RESSURREIÇÃO
DESPOJAMENTO E ELEVAÇÃO ESPIRITUAL

São aspetos inseparáveis na pedagogia de Deus que anuncia essa mudança radical: “A vossa tristeza se transformará em alegria”. A cada missa que celebramos vamos aprendendo a viver essa realidade eucarística de doação, entrega e serviço em cada gesto que praticamos, olhando sempre para a luz que brilha nas trevas depois que rola a pedra do sepulcro. Aprendemos que não é pela força e pela violência que Deus realiza seu Plano, mas pela entrega, doação e serviço.  A estrutura injusta leva Jesus à morte, mas o Deus da Vida o ressuscita e exalta.

NOSSA PARTE
Para que esse Mistério aconteça é preciso que cada cristão saia de seu comodismo, de sua mesmice, de sua preguiça espiritual e de sua mania de deixar tudo para os outros.  Arregaçar as mangas e trabalhar na sua própria mudança interior para que esta transborde para a humanidade.

Paróquia Cristo Rei – Semana Santa de 2008
Texto em folheto da Arquidiocese de Belo Horizonte

[lg_gallery]