Via Sacra Pública

Via sacra – na rua

I – JESUS É CONDENADO À MORTE

Pilatos lavou as suas mãos. Lavar as mãos como Pilatos é ter medo, é fugir da responsabilidade, é não querer compromissos, é, talvez, um absessão de não sujar as mãos com as misérias dos outros. Cristo não foi condenado pelos que acusavam, mas por aqueles que não quiseram deixar-se envolver. Livra-nos, Senhor, da covardia que fecha os ouvidos, que cega os olhos, que paralisa as mãos e o coração, impedindo-nos de lutar pelo bem maior, do menor dos nossos irmãos.

II – JESUS ACEITA A CRUZ

Viver não significa apenas estar presente neste mundo. É uma qualidade do existir: é realizar as promessas contidas no ser humano. É frutificar os talentos, os valores. Ora, o maior talento é o amor. E o amor não desabrocha sem renúncia, sem cruz. O AMOR NÃO É APENAS UMA COISA. Ele é uma pessoa. O amor tem pés, braços, mãos, pernas, lábios, coração e cabeça. Às vezes, parece sem pé nem cabeça, mas ele é muito humano, e muito divino também. O amor chama-se Paulo, Pedro, Leandro, Érika, Patrícia, Roberto, Gabriel… e tantos outros nomes que são pessoas. Além disso, o amor pode ter cara de mau, em certas circunstâncias, como a cara do meu pai ou de meu irmão, em certos momentos, quando não dá mais para dialogar. Sabemos que Deus é amor. Todo amor que há na terra é um pedacinho do céu que Deus emprestou aos homens; mais ainda: o amor é Deus mesmo colocando-se a nosso serviço e bem dentro de nós. O amor nunca nasceu. Ele sempre foi. Quando, pela primeira vez sofreu limitações e foi ignorado, nasceu o mal. O mal só nasceu porque o amor não consegue ser infinito. Que o vosso exemplo, Senhor, nos inspire. Que todos nós saibamos aceitar a cruz de cada dia, a cruz da própria missão, portadora da vossa vida mais plena.

III – JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ

Duro caminho é o caminho do amor gratuito e puro. Nesse caminho é de se cair, e cair repetidas vezes. É a nossa dolorosa realidade. Deus não pode cair. As quedas de Jesus são as nossas quedas. Caímos quando erramos, caímos quando somos orgulhosos, caímos quando somos fracos, caímos quando somos pretensiosos, caímos quando pecamos, caímos principalmente de desânimo e quando confiamos em nós mesmos. Ao longo do caminho encontramos sempre alguém caído. Caído pelo desânimo, pela pobreza espiritual, pela miséria, por imoralidade, pela vergonha e incapacidade de se levantar. Qual nossa atitude diante de tais pessoas? Atitude de crítica, de recriminações, de zombaria, de desprezo, de indiferença? Estendemos as mãos para ajudá-los ou para abatê-los ainda mais? Não sabemos amar. Somos frios para com Deus, duros com os irmãos, e pouco empenhados em iniciativas concretas de comunhão. Somos pecadores. Levanta-nos de nossas quedas e não permitas que fiquemos no chão, desfalecidos e desanimados. Ou que passemos adiante deixando o irmão no chão.

IV – JESUS ENCONTRA-SE COM SUA MÃE

Na estrada da vida, nós nos encontramos com gente que amamos e com gente que nos ama e nos quer bem: os pais, irmãos, parentes, amigos, colegas de trabalho ou de ideal. Muitas pessoas nos amam e sabem expressar seu amor; outras não são capazes de demonstrar que nos amam. Elas também sofrem muito porque ficam fechadas em si mesmas desejando ser diferentes. A Mãe de Jesus sempre foi carinhosa e atenta às coisas da família: presente na educação religiosa de seu filho, companheira de seu esposo José e amiga de muitas outras mulheres que gostavam de acompanhar e ajudar Jesus. Maria era muito parecia com Jesus: sabia ouvir a voz do Pai e pôr em prática. Ambos sempre foram obedientes ao Pai. Senhor, ajuda-nos a fazer a experiência da família de Nazaré: estar presente na vida do outro, dialogar, apoiar, orar juntos, ouvir a voz de Deus, partilhar alegrias e tristezas de cada dia, realizar na própria vida o projeto de Deus.

V – SIMÃO CIRINEU É OBRIGADO A CARREGAR A CRUZ DE JESUS

No caminho da vida e da felicidade, não se vai sozinho. Feliz de quem souber carregar a cruz do outro e deixar-se ajudar também. Tantas vezes acontece isso com a gente: quando alguém sofre ou está precisando de nós, somos tentados a pensar como Cirineu: “o que eu tenho que ver com este homem? Por que eu? Já trabalhei o dia todo?” Tenho que aceitar que algumas vezes disponho-me a fazer alguma coisa pelo outro porque sou forçado pelas circunstâncias, assim como Cirineu foi forçado pelos soldados. A presença dolorida de irmãos nos incomoda e nos provoca. Na rua, no trabalho, na família, no lazer… encontramos pessoas que precisam de nós. E quando passamos adiante e nada fazemos, na verdade é o Cristo, mais uma vez que ficou sem receber o conforto do meu amor. Da mesma forma, muitas vezes precisamos fazer como Jesus: aceitar melhor a colaboração dos outros, trabalhar em equipe. Será que em nossa família, no trabalho e na comunidade nós damos e aceitamos a colaboração dos outros? Ou somente a nossa idéia é válida e a melhor? O que fazer hoje para dar um pouco de nós mesmos aos outros de forma espontânea e alegre? A palavra de Jesus é confortante: “Venham a mim todos vocês que andam cansados de carregar pesos e eu lhes darei descanso” (Mt.11,28).

VI – A VERÔNICA ENXUGA O ROSTO DE JESUS

No caminho da humanidade sofredora não faltam as Verônicas, os Bons Samaritanos, as Marias. São tão simples como um pedaço de pão, um copo de água fresca, um pouco de sombra, alguns pães e peixes. São pessoas que sem dizer nada, tudo compreendem, e fazem apenas gestos de carinho no rosto cansado, passam as mãos leves sobre ombros vergados ou um lenço branco de esperança enxugando a dor e o abandono dos órfãos, dos enfermos, dos esquecidos nas ruas, dos abandonados nos asilos, dos prisioneiros sem dignidade. Se hoje nós encontrarmos alguém sofrendo teremos coragem de renunciar ao nosso egoísmo, ao nosso medo e expor-nos à zombaria para socorrer esse irmão sofredor? Por nossos caminhos, na família, no ambiente de trabalho, na escola, no círculo de amizade sempre haveremos de encontrar um irmão carregando a cruz, esperando o lenço branco que os ajude a suportar e superar a dor. Só o amor efetivo salva, pois, Jesus é aquele que “tem fome e damos de comer, tem sede e damos de beber, está no cárcere e vamos visitar, estava nu e nós o vestimos, estava doente ou na prisão e fomos visitar”. (Mt 25,35). Perdão, Senhor, por nosso coração de pedra que ainda não se transformou em coração de carne. Perdão por nosso amor atravancado. Reeducai-os para os gestos gratuitos de carinho para que a vossa se grave em nosso coração e resplandeça em nós.

VII – JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ

Em todo caminho do amor sempre há uma segunda queda, mais dura que a primeira. Quem é que já não sentiu isso em sua vida com seu pai ou sua mãe, com seu esposo ou esposa, com seu amigo, amiga, colega ou namorado? Nós somos cheios de defeitos e caímos muito. Achamos que nunca vamos aprender a cair direito, simplesmente porque não se cai direito. Mas, pelo menos, se não sabemos cair direito é preciso saber levantar-se corretamente. Isso é o que importa! Toda queda parece matar a esperança de prosseguir caminho. É vontade de isolar-se, de buscar a solidão povoada apenas da lembrança dos ingratos. É vontade de restringir o amor àqueles que sabem retribuir. É fuga para não mais servir. É omissão. O amor cristão deve ser absolutamente original como disse Jesus: “… amem seus inimigos, rezem por aqueles que os perseguem; assim vocês terão o amor do Pai do céu que faz nascer o sol sobre pessoas boas e más e faz chover igualmente sobre os que praticam o bem e os que praticam o mal” (Mt. 5,44). Curai-nos, Senhor, do amor calculista, programado para fazer o bem somente para os que podem retribuir. Que a alegria dos outros seja nosso único prêmio, para vossa maior glória.

VIII – JESUS CONSOLA AS MULHERES DE JERUSALÉM

Na estrada dos seres humanos há mais gente que lamenta o mal do que gente que se esforça para evitar o mal, em si e nos outros. O consolo de Jesus é uma advertência: o mal não está na cruz, na coroa de espinhos, no corpo flagelado, nas vestes sujas de sangue e terra. O mal está dentro do próprio ser humano que não acolhe a mensagem exigente de Jesus e a quer silenciar. O mal entrou no mundo pela liberdade do homem. O mal é a injustiça, o desamor, o preconceito, a exclusão, o apego à matéria, a infidelidade a Deus. Senhor, perdoai nossa falta de amor Transformai-nos em discípulos da luz, construtores da paz, operários da verdade.

IX – JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ

Na estrada do amor sempre podemos conhecer quedas sempre mais duras. Aquelas que nos levam a duvidar do próprio amor. Não seria o amor uma doce ilusão? E se é ele que dá sentido à vida, a vida tem sentido? E se Deus é Amor, existe Amor? É assim a queda do ser humano: dúvidas, inquietações, angústia, vazio, remorso, culpa… É o homem no chão. Com a cara no chão, o homem sente que, em sua interioridade, uma nova vida já está pulsando, e que o mundo inteiro está sempre à espera de que o homem novo nasça. Mas, se o homem ficar caído no chão, nada irá acontecer. É preciso esperar. É preciso confiar. Mas, acima de tudo, é preciso levantar-se do chão! Pensando no Cristo caído, sujo e ensangüentado, nós nos escandalizamos com as atitudes dos judeus e dos soldados que o batiam e maltratavam. No entanto, nem sempre somos capazes de fazer o contrário quando nos deparamos com cenas iguais que acontecem com cada um de nós, hoje: Perdoai-nos, Senhor, por todas as vezes que fomos causa de queda para os outros, pelas vezes que batemos ou ao invés de estender a mão.

X – JESUS É DESPIDO DE SUAS VESTES

Jesus perde suas vestes que serão, depois, sorteadas, pelos solados. O Caminho da Comunidade se confunde com o caminho da cruz: nele tudo se perde, nada se conserva para sempre. Perde-se tempo para ouvir, para servir os outros, para solucionar suas dúvidas. Perde-se alegria para sofrer com os que sofrem. Perde-se dinheiro para socorrer os pobres, para não explorar os mais fracos. Perde-se lugar para melhor acolher, Perde-se privilégio para não sacrificar a justiça. Perde-se amizade para não esconder a verdade. Perde-se tudo para ganhar a todos, como diz São Paulo. Na mística do Reino, aqueles que perdem, ganham. É como a vela que se desgasta e se consome, mas ilumina e aquece. Na contabilidade do Reino as perdas são créditos acrescentados e somados… Senhor, Dá-nos coragem e disposição para nos despir de nosso orgulho e prepotência, de nosso comodismo e indiferença, para lavar os pés dos irmãos.

XI – JESUS É PREGADO NA CRUZ

Prenderam numa cruz que era uma vergonha e entre dois ladrões, o Homem que era Deus e que tinha vindo para libertar a humanidade. Passou a vida fazendo o bem, mas não foi compreendido. Conviver e caminhar juntos supõe, muitas vezes, que aceitemos companhias desagradáveis. Com Cristo, o cristão não marginaliza ninguém. Nenhum pretexto o afasta dos outros Senhor, que a nossa presença, como a vossa, leve sempre luz e esperança a todos os crucificados

XII – Jesus morre na cruz

Durante toda sua breve vida, Jesus fez questão de dizer que estava cumprindo a vontade do Pai. Por isso, o São Paulo escreveu: “foi obediente até a morte, e morte de cruz”. O que salva o ser humano, não é a cruz, mas o Amor do Amado. É a prática dos ensinamentos. “Seja feita a vossa vontade”. A oração do Pai Nosso é um convite para nos lembrar que o que nos salva é fazer sempre a “vontade do Pai”. Mas, para fazer a vontade do Pai é preciso que sempre algo “morra” em nós mesmos. Senhor, que o grito de vossa fidelidade suprema, e o gemido de vossa oração misericordiosa ecoem dentro de todos nós convidando-nos para uma generosidade semelhante. XIII – JESUS É DESCIDO DA CRUZ No colo de Maria, está o corpo de Jesus formado de seu próprio corpo. No altar da cruz se realiza o ofertório vivo de Maria que entrega aquele corpo ao Pai. No colo de Maria está seu Filho e toda a humanidade. A tristeza da Mãe não é marcada pelo desespero e revolta, mas pela confiança no Pai e a certeza de que seu Filho haveria de ressuscitar. Maria sabe que a morte é apenas uma passagem e que em breve se encontraria novamente com seu Filho Ressuscitado. Senhor, ajuda-nos a compreender o sentido da dor e do sofrimento. A colocar no colo de nosso coração a certeza de que a morte é semente de vida. E que “se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, será sempre um grão de trigo…”.

XIV – JESUS É SEPULTADO

Jesus foi colocado numa sepultura que se situava num jardim, cultivado por José de Arimatéia. Quando criou o mundo Deus também ali colocou nossos primeiros pais. Esse foi sempre o sonho de Deus: que a família humana vivesse num ambiente de paz, de beleza e de harmonia. Infelizmente não somos capazes de cuidar e administrar bem esse jardim. Senhor, que a nossa morte não seja apenas um partida, mas o último gesto de uma série incontável de gestos de amor.

XV – JESUS RESSUSCITA

A Ressurreição não é simples volta à vida deste mundo. Ela é a vida que Jesus passa a viver no seio de seu Pai. As aparições de Jesus tranqüilizando, servindo, tomando refeição junto e iluminando, confirmam os Apóstolos na fé. E eles partem para o testemunho. O importante não é compreender a vida, mas vivê-la. O indispensável não é explicar o mistério da ressurreição, mas testemunhá-lo através de uma vida de amor fiel. Nós cremos, Senhor, não porque o túmulo estava vazio, mas porque o Senhor apareceu à sua Mãe, a Maria Madalena, aos discípulos de Emaús, aos apóstolos e a inúmeros discípulos. Aumenta, Senhor, a nossa fé, e ajuda-nos a viver como ressuscitados, levando a semente da esperança aos corações de nossos irmãos e irmãs.

Texto de arquivo das Equipes de Nossa Senhora,

adaptado e atualizado pelo Padre Luiz Carlos Magalhães,

da Paróquia de Cristo Rei, Jardim, Chapadão,

Campinas, em abril de 2006.

Utilizado para Rito Penitencial e Via Sacra Pública