Pedagogia do espaco

Pedagogia do espaço

Costuma-se dizer que não existe espaço neutro como não há nada neutro na vida. Ser neutro, ficar neutro, já indica uma tomada de posição que reforça a parte que está ganhando. Não se constrói uma capela, um templo, “jogando” bancos, pia batismal, mesa da palavra e altar em qualquer lugar. Nada é por acaso. Até mesmo a falta de criatividade, de imaginação, de planejamento expressam uma disposição interior e a maneira como cada pessoa concebe o mundo e suas relações. Quando encontramos um local onde todas as coisas estão no seu devido lugar dizemos que o espaço ensina, educa, forma, agrada, desperta um sentimento, uma emoção.
Quando vamos preparar um espaço sempre temos uma intenção: pode ser consciente ou inconsciente. Escolhemos tal forma, tal disposição porque vimos em algum lugar e achamos bonito ou porque queremos passar alguma idéia, expressar algum sentimento. Quando pensei em construir uma capela do Santíssimo Sacramento imaginei um local agradável, silencioso que desse condições para as pessoas se isolarem um pouco do mundo e entrarem em comunicação com Deus. Mais ou menos como lemos no evangelho: “Ele costumava retirar-se a lugares solitários para orar” (Lc. 5,16).

Uma capela sonhada

Há muitos anos sonhei uma casa para nosso Mestre Maior. Aquele que aboliu o sacrifício diário se oferecendo como Cordeiro a ser Imolado. Um lugar para o nosso Mestre Maior que nos ensina diariamente a ultrapassar as fronteiras da morte, a renascer da divisão para a Totalidade.
No Livro do Êxodo, capítulo 25, li a narrativa em que Deus falava a Moisés: “Diga ao povo de Israel que me faça uma oferenda elevada. E então vai escrevendo como gostaria de um lugar para ser encontrado! Uma Arca de madeira da Acácia, dois querubins de ouro, um em cada extremidade. Uma mesa de madeira, um candelabro de ouro de seis braços e uma haste principal, o incenso sagrado… Que toda madeira seja ornada com ouro, prata e bronze, e com pedras preciosas. Que ali sejam feitas oferendas ao Santo dos Santos. E que ali os escolhidos possam falar com Deus face a face”.
Inspirado nesse texto, sonhei com uma capela de madeira que não fosse um quadrado, uma caixa. Para ser original, idealizei uma arquitetura hexagonal: as seis paredes simbolizam o selo de Salomão e as seis pontas da estrela de Davi, em cuja linhagem o Mestre nasceu. Também significam os seis braços do candelabro judaico, unidos pela haste principal, a Luz mais importante que é Jesus. E seis também foram os dias da criação para preparar o Dia do descanso, do repouso.
A capela foi sonhada para ser uma espécie de tenda da “revelação”: o lugar afastado dos nossos barulhos cotidianos para que possamos entrar em comunhão, em fraternidade e em silêncio com o Mestre Jesus. Por isso, é fechada com cortinas de fino voal. Os vitrais coloridos e a passadeira de cizal não são para decorar, mas para velar. O ornamento desta capela é Cristo em comunhão com você. Do contrário não faz sentido.
Tudo foi feito de madeira como se fosse da marcenaria de José: o assoalho, a mesa, os genuflexórios, as cadeiras. As almofadas aí colocadas para nosso conforto recordam o trabalho de Maria nos teares. No silêncio deste santuário colocamos parte de uma árvore frondosa doada pela Mãe Terra para ser suporte e mesa. Estaremos em frente à Árvore da Vida e ao Tronco principal do qual somos os ramos. Para nos sentirmos parte dela, a Árvore, ou parte dele, o Mestre. E também para entrarmos em comunhão com o Mestre.
E por que em vez do sacrário tradicional de prata e outro, colocamos uma casa? A primeira casa que conhecemos é o corpo, Templo sagrado do espírito. A segunda é o Lar em que vivemos à semelhança da Casa de Nazaré e expressando o que João escreveu em seu Livro: “O Verbo se fez carne e estendeu sua tenda entre nós”.
É claro que esta artesanal “casinha” de Jesus não foi revestida de ouro. Sabem por que? Porque o ouro, a prata e o bronze, as pedras preciosas e todo o ornamento são as qualidades, valores e virtudes que cada um deve trazer diariamente para enriquecer esse ambiente sagrado. O ornamento desta capela é Cristo em comunhão com você. Do contrário não faz sentido: uma casa que ninguém visita fica triste e abandonada. Não se esqueça, portanto: as lâmpadas de azeite na porta são como um chamado de Marta quando Jesus veio ressuscitar Lázaro. Por isso, a inscrição: “O Mestre está aí e te chama”. Para a Festa da Vida em sua casa, para a Comunhão do Amor.
A primeira comunhão com esta Árvore da Vida é a da sabedoria, a da compreensão. A segunda comunhão que o Mestre nos revela na “Tenda” é a comunhão do coração, da identificação com ele e com o outro; a comunhão dos sentimentos, da misericórdia e da compaixão. A terceira comunhão que Ele quer é a comunhão física, a do Corpo. Quando o Pão e o Vinho são ingeridos de fato, o Mestre e toda a sua grandeza se incorpora a nós fisicamente.
Nessa capela, “Tenda do Senhor”, somente o sacrário chama a atenção. Tudo foi feita para que o olhar do visitante se concentre unicamente no Mestre. Na “casinha” de Jesus, iluminada por dentro com uma luz vermelha, estão a porta e janela; nelas foi colocado um vidro, permitindo às pessoas contemplar as âmbulas que sugerem exposição do Santíssimo, silêncio, contemplação e comunicação.

Palavra do Concílio

Antes de iniciar uma obra é preciso perguntar sempre: como vamos ocupar o espaço? O que queremos educar e o que pretendemos dizer através do espaço? Qual a finalidade? É preciso planejar, avaliar e refletir sobre a ocupação do espaço, pois, este irá produzir um grande reflexo nas pessoas, no desenrolar da ação litúrgica e sua compreensão. A liturgia é celebrada num determinado lugar, num espaço que pode ajudar ou prejudicar a participação.
Há formas que valorizam “a participação consciente, plena e ativa”, diz o documento do Vaticano II, Sacrosanctum Concilium. Se “a liturgia é o cume para o qual tende sua ação e é fonte de onde emana toda a sua força” é importante criar condições para um bom desempenho da liturgia. Há algumas peças que são mais importantes que outras. Nenhuma peça é mais importante que a mesa da eucaristia, a mesa da palavra e a cadeira da presidência. Devem dar um sentido de unidade e não podem ficar escondidas por outras peças, como flores, suportes de velas e cartazes.
E o que fazer com os espaços construídos antes do Concílio? Há que se respeitar as tradições, costumes e ambientes que refletem a cultura e a história de cada lugar. O importante é estudar bem cada caso, optar pelas soluções mais simples sem comprometer a unidade geral do espaço. E não acrescentar ainda mais coisas. Quando o altar está no fundo e o padre está num presbitério elevado, inacessível aos fiéis, ocupando um espaço demais privilegiado e separado do povo, é possível colocar um outro altar mais à frente, deixando o mais antigo apenas como peça histórica.
O espaço sagrado educa, ensina, forma, agrada, desperta um sentimento, uma emoção. Tem um sentido de unidade e conduz cada ser humano para um encontro com a divindade.


Liturgia e Comunicação

Se tirarmos o perfume da água de colônia teremos apenas um líquido sem nenhuma força de atração.
Se transformarmos a Missa em um programa recheado de cânticos, rezas e falas ou uma reunião de protesto e reivindicações, o povo perderá o encanto pela missa e as pessoas irão se afastar da assembléia.
Mas, como pretendemos criar um encontro de comunhão com Deus e dos fiéis entre si, então necessitamos de tempo para o silêncio e o mistério.
Nós católicos temos nas mãos um poder imenso. Cada domingo nossas igrejas estão lotadas. Juntando todas as igrejas poderemos chegar a 10 milhões de pessoas. É um grande auditório. Mas o que fazemos para saciar a fome dessa gente? Como celebramos e fazemos a comunhão com Deus? Em que as nossas celebrações, cantos e homilias se parece com a pregação e a ação transformado de Jesus?
Temos uma responsabilidade muito grande em nossas mãos! Precisamos rever melhor a comunicação que acontece em nossas celebrações. Tudo comunica: o altar, as toalhas, os objetos litúrgicos, as imagens, o ambão, a postura do sacerdote e da equipe do altar, o som, a posição dos bancos, as leituras, os cânticos, o silêncio, os gestos e todos os símbolos.

Os atores da Missa

Vamos nos ater aqui às leituras e falas que acontecem na missa. Toda a equipe do altar é responsável na condução da liturgia, na animação da assembléia e na comunicação da mensagem de vida aos cristãos.
Foi através de gestos e palavras que Deus manifestou a salvação da humanidade. É através do gesto supremo de Cristo – morte e ressurreição – que Cristo realiza a salvação da humanidade.
Os gestos e palavras de Cristo estão presentes na liturgia – na missa e nos sacramentos: comunicam e realizam a salvação. O documento de Puebla (Nº 922) diz que a liturgia por si só comunica: é de sua natureza. Explicando e comparando: independente da peça, dos atores e do diretor, o teatro comunica por sua própria natureza. Também o acontecimento litúrgico por si só tem a força comunicativa. Terá mais força ainda se bem preparado, montado e realizado. Terá mais força se os atores souberem interpretar. Às vezes uma peça é ótima pelo seu conteúdo e mensagem, mas pode desagradar porque os atores não sabem interpretar. Da mesma forma muitos cristãos também não gostam da missa, quero dizer: não gostam desta missa com esses atores, esse padre e essa equipe do altar. E podem gostar e se envolver afetiva e emocionalmente com aquela missa em que os atores interpretam melhor; quero dizer, rezam, cantam, fazem as leituras com convicção e fé, com unção e entusiasmo.
Ainda não exploramos o suficiente as orientações litúrgicas do Concilio Vaticano II nos seus aspetos práticos, criativos e de inculturação. Não basta ter o texto na mão, os cânticos preparados e os símbolos no altar. É preciso saber para quem eu vou celebrar, que tipo de assembléia, em que lugar e quem são as pessoas. Aqui está o segredo da renovação litúrgica e a busca de adaptação aos tempos e aos povos, à cultura e ao ambiente.
O fato de celebrar em língua vernácula melhorou a comunicação na liturgia. Mas, o documento de Puebla vai além mostrando quais são os elementos fundamentais da liturgia: números 919, 926, 929 a 931, 940, 947 a 949. Fala da importância dos sinais, da variedade das leituras, das homilias claras, objetivas e bem preparadas, dos cânticos sacros, da dimensão artística e da criatividade.

As leituras

A comunicação não se faz somente com palavras. É importante a postura física, a fisionomia, o tom de voz, os gestos, o sentimento, a emoção. Por isso, leitores e comentaristas precisam estar muito atentos no andar, no gesticular, no modo de vestir-se e na maneira como olha as pessoas. Não é difícil ver ministros, acólitos, leitores conversando no altar, com as mãos no bolso, se comunicando com gestos à distância com outras pessoas. Isso podemos dizer que são os ruídos na comunicação. Coisas que distraem, desconcentram, desviam a atenção e interferem na comunicação ou na recepção de mensagens.
À guisa de sugestão oferecemos algumas indicações para leitores e comentaristas.

1. Preparar a leitura:
– tomar o texto e saber qual a mensagem central
– entender o texto: mastigar e comer
– identificar as palavras difíceis de pronunciar ou em outro idioma
– concentrar-se e rezar antes da celebração

2. Leitura do texto
– ler com convicção – fé e certeza
– dar sabor ao texto
– pronunciar todas as palavras e todas as sílabas, principalmente as sílabas finais
– pronunciar bem a letra “s”
– não emendar uma palavra com a outra
– ler para a comunidade e não para si mesmo
– distinguir as frases narrativas dos pronunciamentos diretos
– distinguir nas frases diretas quando é um ensinamento, quando é uma ironia e quando é uma pergunta
– dar o tom certo para cada personagem que a leitura apresenta
– “não deixar cair a peteca”: se as pessoas que vieram antes leram com entusiasmo continuar nº mesmo ritmo; não prejudicar o andamento da missa
– quando ler sem microfone olhar para os últimos lugares como se somente eles estivessem ouvindo; levantar um pouco a cabeça

3. Como fazer a leitura
– pode ser feita por uma só pessoa
– pode-se dividir o texto segundo os personagens
– se a leitura for um tanto longa, dividir o texto em parágrafos curtos e fazer a leitura em duas pessoas
– memorizar o texto e transmitir oralmente

– Como dia Frei Paulo Avelino: “Equipe fria produz frieza espiritual”
– E como dizia João Paulo II: “A leitura deve harmonizar-se com os princípios da arte. Que a leitura seja apresentada com dignidade tal, que faça resplandecer, já no próprio modo de ler, o caráter especial do texto sagrado” (O Mistério e o Culto da SS Eucaristia).

Celebração sem padre

O Documento da CNBB fala de celebrações presididas por leigos; fala da função do celebrante, e da diversidade de assembléias: é diferente uma festa de criança, de um casamento e de uma reunião de idosos. Fala também das exigências para uma verdadeira celebração, dos tipos diferentes de assembléias, da importância dos sinais e dos símbolos e da espiritualidade.
Um celebração autêntica é encarnada, existencial, cristocêntrica, libertadora, comunitária, missionária.
Uma celebração não-autêntica é passageira, individualista, desencarnada, dualista, ultra-terrena, sobrenatural

A Celebração é uma festa (Doc. CNBB)

A festa reúne. A refeição é o ponto central. A Eucaristia é a refeição de um povo em festa. A equipe do altar precisa sentir-se dentro do clima que o grupo vive; para isso é preciso sair de si mesmo, do passivismo, da indiferença e assimilar-se ao grupo. A Equipe deve buscar acolhimento, integração e participação. Deve ser diferente entrar na igreja e entrar numa repartição pública. Toda festa supõe preparação longa, paciente e cuidadosa. A celebração começa quando gestos, vestimentas, sinais passam a significar algo para cada um. Toda festa supõe também um passado: algo que, ao ser evocado, diz respeito a todos e a cada um. Não é mera lembrança. É reviver uma história, um acontecimento, da qual se participou, está participando e deseja fazê-la história própria. A realidade da festa exige implicação pessoal, direta ou indiretamente. Na liturgia nos sentimos dentro da história porque lembra o primeiro gesto de integração que é o Batismo. A participação na festa modifica as pessoas: quem já se conhece sai comentando e quem não se conhece para a se interessar uma pelas outras. Quando os cristãos se reúnem pela fé, além do alegre encontro de pessoas há um passado que os une: o conhecimento de Jesus Cristo, causa da salvação. Não ão apenas as realidades do dia-a-dia que causam e motivam a celebração. É a certeza de estar incorporado ao Cristo.


Texto: Padre Magalhães, Luiz Carlos
Palestra na Paróquia Cura D’Ars
Abril de 2005.