Palestra sobre “Os Ministros da Eucaristia”

Palestra sobre “Os Ministros da Eucaristia
na Santa Missa e na Celebração da Palavra”

1.Elementos bíblicos fundamen-tais da Eucaristia
A Bíblia apresenta 5 tipologias de compreensão da Eucaristia:
a Páscoa do Senhor, a Aliança, o Sacrifício, o Banquete, a Habitação.
“Tomai, todos e bebei: este é o cálice do meu sangue,
o sangue da nova e eterna aliança,
que será derramado por vós e por todos, para a remissão dos pecados”

a) Páscoa do Senhor
A Eucaristia tem origem na Páscoa judaica. A Eucaristia é a Nova Páscoa que recorda a passagem de Jesus deste mundo para o Pai. Depois de dar sua vida, derramando seu sangue pela redenção, salvação e libertação da humanidade.
Com a formação das primeiras comunidades, os primeiros cristãos se reuniam para recordar a tradição judaica de imolar o cordeiro:  o sangue que protegia os primogê-nitos representa vida  e fundamenta a teologia de defesa da vida.
Jesus foi apresentado por João como o Cordeiro de Deus: sua imolação exprime sua fidelidade ao Pai; e o sangue derramado, um gesto amoroso e gratuito.
A Páscoa representa também a caminhada do povo pelo deserto e a intervenção salvífica de Deus: a libertação do Egito, o maná e a água tirada da rocha, os dez man-damentos.

b) Aliança
Deus fez uma aliança com Noé, Abraão, Moisés, Josué e o movi-mento profético que mantém o povo fiel à aliança. O sangue utilizado no rito da aliança simboliza e significa o acordo realizado entre Deus e o Povo.
O sangue de Jesus na cruz é a marca da nova aliança. O sangue, sinal de vida, dá a vida ao mundo. O vinho é o sangue, memória do mistério da aliança definitiva (texto da consagração). Participar da Eucaristia significa permanecer em Cristo e em sua aliança.

c)Sacrifício
Dois tipos de sacrifício se destacam> sacrifício de comunhão e o de expiação. Para formular uma teologia eucarística é preciso reco-nhecer a Eucaristia como sacrifício a partir da morte de Jesus visto como amor e fidelidade do Filho ao Pai. A Eucaristia celebra e atualiza o sacri-fício de Jesus.

a)Banquete
Jesus celebrou a Páscoa Judaica com seus discípulos em forma de ceia derradeira: ele se deu aos discípulos como comida e bebida de vida e salvação. Pão e Vinho, frutos do trabalho humano se juntam a Cristo, sacerdote e vítima.
A Ceia é um banquete includente oferecido a todos, especialmente aos pobres. Nesse banquete Jesus está com os discípulos, e ele mesmo é alimento. Dessa forma, a substância do pão e do vinho adqui-rem caráter transcendente: pão e vinho se transubstanciam e são oferecidos a todos os que estão pre-parados. Cristo é reconhecido na fração do pão e a Ceia tem caráter de esperança da eternidade, sinal da volta de Cristo.

d)Habitação
No AT este tema destacava a presença salvífica de Javé no meio do povo: é Deus que ouve o clamor do povo, desce e vem libertar. No NT João diz que o Verbo se fez carne e habitou entre nós, foi crucificado, morto e sepultado; mas ao terceiro dia, ressuscitou. Na Eucaristia essa presença de Deus se realiza em Cristo, o Emanuel (Deus conosco) presente na Igreja que faz a Eucaristia, que faz a Igreja. “Fazei isto em memória de mim”: comunhão, memória e partilha.

2.Elementos teológicos essenciais
Na dimensão teológica, a Eucaristia é vista em três (3) aspetos distintos e articulados entre si: Bênção, Ceia Pascal, Memorial

a)Bênção
Na tradição judaica encontramos a bênção cultual judaica (Berakah): invoca-se a bênção de Deus sobre a família reunida na forma de ação de graças pelas maravilhas do Senhor realizados na história. Depois da bênção vem a confissão de fé em um Deus único e verdadeiro, Senhor de Israel que libertou do Egito seus filhos, deu-lhes uma terra e promoveu ações concretas para manter o povo na aliança. Após o ato da confissão, realiza-se a doxologia final que indica o movi-mento de descendência e ascendên-cia da bênção de Deus. A bênção é um ato de Deus.
Jesus conservou alguns elementos da bênção. A Eucaristia se apre-senta como ação de Graças e louvor realizados pelo Espírito Santo que invoca à comunidade, a memória do sacrifício único e perfeito de Cristo. Memória pascal significando vida nova.

b)Ceia pascal
No judaísmo, a ceia da páscoa faz a memória do êxodo: pão e vinho simbolizam a saída do Egito e a Ter-ra conquistada. Celebrar a páscoa é fazer memória e atualizar esse acontecimento, sinal da presença permanente de Deus no meio do povo.
Jesus assimila essa tradição tomando para si o pão e o vinho como seu corpo e seu sangue. A Eucaristia é a ceia pascal de Jesus, onde pão e vinho simbolizam o seu sacrifício amoroso. Portanto, comungar do pão e do vinho significa comungar do corpo e do sangue de Cristo em sua vitalidade real: é a nova e eterna aliança, ação de graças das maravilhas realizadas por Deus no tempo da Igreja.

c)Memorial
Memorial é recordação, é trazer presente um acontecimento passa-do, é atualizar o mistério inserindo a humanidade na história da salvação. As promessas de Deus se tornam presente para manter a fidelidade. O gesto eucarístico coloca no altar os sinais do sacrifício de Cristo, pão e vinho, corpo e sangue, sinais visíveis do sacrifício de Cristo na cruz.

3.Eucaristia e Igreja, serviço da comunhão
A Eucaristia é a expressão máxima da vida de Cristo. Vida toda eucarística para tornar o mundo eucarístico. Vivendo em comunhão com o Pai e com o povo, chama os discípulos para formar uma comuni-dade eucarística e, posteriormente, uma Igreja eucarística. Igreja que partilha o pão, que lava os pés, que carrega os fracos, que é sal, fer-mento e luz, que anuncia e denun-cia, que é samaritana, cireneu, Igreja de crucificados e ressus-citados.
A Eucaristia faz a Igreja quando o mistério trinitário do amor de Deus chama, convoca cada homem e mulher, bem como toda a comuni-dade eclesial, para viver a comu-nhão e em comunhão com o próprio mistério da trindade, encarnado no mundo em Jesus de Nazaré, pela ação do Espírito Santo. Amor e Eucaristia se identificam.
A Igreja faz a Eucaristia toda vez que luta a favor da vida, que se faz solidária e fraterna, que atualiza o amor-pascal de Jesus, derramando seu próprio sangue. Uma Igreja eucarística é uma Igreja de már-tires. A Eucaristia é antecipação do Reino.

4.Lugar da espiritualidade da eucaristia na sociedade
A espiritualidade ou piedade popular precisa ser desenvolvida e alimentada nas comunidades. Para isso, basta seguir alguns caminhos:
a)cuidar melhor das celebrações eucarísticas: que sejam verdadei-ras, autênticas, encarnadas ou ex-pressão da realidade, cheias de sentido;
b)desenvolver um sentido de devoção pela presença real de Jesus através da Adoração do Santíssimo, as festas de Corpus Christi e Quinta-feira Santa;
c)colocar o sacrário em destaque no templo e o centro da vida e da oração cristãs;
d)promover a educação eucarística para toda a vida cristã, criando condições para que os cristãos fa-çam uma verdadeira experiência de Deus;
e)iniciar os cristãos na prática fiel da oração, na reverência e adoração a Deus, na partilha dos sentimentos.

– A celebração eucarística deve ser o lugar onde se experimenta e se encontra, no grau mais alto, a fé, a esperança e a caridade.
– A visita ao Santíssimo deve ser prolongamento da celebração eucarística, e não uma devoção pri-vada, fechada em si mesmo. Deve significar um compromisso de viver essa presença real de Cristo que é doação e entrega ao outro, desejo de tornar-se pequeno, capaz de doar a própria vida

5.Receber a comunhão
é fazer a aliança com a causa do oprimido;
é entrar em comunhão com Jesus e acolher sua presença nos corpos e nas lutas de quem batalha por comida, por saúde e educação, por roupa e lugar onde morar.
é aprender a fazer-se pão para todos, transformando a própria vida e colocando-se a serviço dos outros.

6.Lições da ceia derradeira
a)encarnar-se na realidade do povo, como Jesus, transfiguran-do-se, para tornar-se verdadei-ramente humano;
b)sentir a alegria da presença de Jesus na reunião em torno da mesma mesa, onde estamos juntos, ajudando-nos e amando-nos uns aos outros;
c)partir em missão, construindo novas relações de fraternidade, justiça, perdão e solidariedade;
d)compreender porque Jesus se faz pão e como ser pão parti-lhado para os outros, partilhando o pão.
e)aprender a “comungar”, que si-gnifica comunicar-se com Jesus e receber a vida dele em nossa vida; aprender a comungar com Jesus, com seus semelhantes, com a natureza e com a criação divina;
f)comungar com Jesus: fazer a memória, comemorar, rememo-rar juntos; reviver em nossas vidas o que Ele viveu, assumin-do os valores evangélicos, dis-postos a dar o nosso sangue e a nossa carne para que os outros tenham vida.

Conclusão:
1)a Eucaristia é a Ceia do Senhor
2)a Eucaristia é o Banquete Euca-rístico
3)a Eucaristia é o Corpo e  Sangue reais de Cristo
4)a Comunhão eucarística denota também a comunhão existencial de cada ser humano;
5)na Eucaristia está toda a história da salvação
6)a Eucaristia é escatológica.

A Eucaristia como Banquete oferecido a todos é alimento para o caminho de todos aqueles que apostam com sua vida, que é possível um novo céu e uma nova terra, uma Terra sem males.

Bibliografia

Eucaristia, fonte da missão e da vida solidária, 14º Congresso Eucarístico Nacional, Paulus, 2001
Sacrosanctum Concilium, Vaticano II
Mysterium Fidei (1965) Paulo VI, Vozes, 1965
Dicionário de Teologia, Conceitos fundamentais da teologia atual, “Euacristia”, Loyola, 1983
Curso fundamental da fé, K. Rahner, Paulus, 1989

Texto inspirado no Texto-base do 14º Congresso Eucarístico Nacional,
em Campinas, 2001 – Padre Luiz Carlos F. Magalhães, 2006,