Homilia de quinta-feira santa

HOMILIA DE QUINTA-FEIRA SANTA


1.Jesus estava para ser preso. Em algumas horas começaria o seu martírio. A última noite que passou com seus discípulos foi incomum. Uma noite diferente de todas as outras.
2.A partir dela seria preso, julgado, torturado, crucificado e morto. O ambiente dessa noite poderia inspirar angústia e medo em qualquer um. Porém, o personagem principal daquele cenário estava tranquilo.
3.Nenhum ser humano esteve em uma posição tão alta quanto a dele. Todavia, paradoxalmente, ninguém se humilhou tanto como ele.
1…. Querendo dar profundas lições de vida nos últimos momentos antes de sua morte, Jesus teve a coragem de abaixar-se aos pés dos seus incultos discípulos e lavá-los silenciosamente.
2.O Mestre de Nazaré, com essa intrigante atitude, vacinou seus discípulos contra o individualismo. Inaugurou uma nova forma de viver e de se relacionar.
3.Introduziu no cerne deles a necessidade de ser tolerante, de buscar ajuda mútua, de aprender a se doar.
1.Jesus lavou os pés de todos os seus discípulos, inclusive os de Judas. Sabia que Judas o trairia, mas ainda assim foi complacente com ele e não o expôs publicamente.
2.Vocês conhecem, na história, alguém que tenha lavado os pés do seu próprio traidor? (pausa)
3.É surpreendente para nós, que não toleramos a mínima ofensa, que ele não apenas tenha suportado a traição de  Judas, mas lavado as crostas de sujeira dos seus pés.
1.Quando Jesus terminou de lavar os pés de todos, Judas saiu para o trair.
2.Era a última ceia, a chamada Santa Ceia. Jesus dissera aos seus discípulos:
3.“Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa antes de sofrer…”
1.Revelou assim que esperava, há anos, por aquela última ceia.
2.Por que aquele momento era tão importante? (pausa)
3.Para os discípulos, era mais um banquete à mesa, mas para o Mestre de Nazaré aquela ceia era diferente de todas as outras. Ela representava a história dele, a sua missão.
1.A Páscoa era uma festa comemorada anualmente para lembrar a libertação do povo de Israel.
2.Antes de deixar o Egito, fugindo da dominação em que seu povo vivia, cada família imolara um cordeiro e aspergia seu sangue sobre os umbrais das portas.
3…. A Páscoa era uma festa alegre, radiante, um brinde à liberdade.
1.Mas os íntimos de Jesus não sabiam se choravam ou se alegravam.
2.Por um lado, a mesa estava posta, o alimento saciaria a fome e provocaria prazer.
3.Por outro lado, havia no ar uma insuportável tristeza, pois o mestre anunciara que iria partir.
1.Os discípulos não entenderam que Jesus queria se identificar com o cordeiro da Páscoa para nutrir, alegrar e libertar não apenas o povo de Israel, mas toda a humanidade.
2.Não se lembraram do batismo no Jordão quando João Batista anunciara: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.
3…. O próprio Jesus se posicionou como “cordeiro de Deus” e planejou morrer no dia da Páscoa… Não queria morrer em qualquer dia e em qualquer lugar… E aquela Páscoa era a sua hora e representava o capítulo final de sua história… (pausa)
1.Naquela noite incomum, Cristo não apenas lavou os pés dos seus discípulos… mas também os abalou com um diálogo surpreendente.
2.Todos estavam reclinados sobre a mesa, saboreando o cordeiro da Páscoa. Então, Jesus interrompeu a ceia, olhou para eles e proferiu seu mais intrigante discurso.
3.Um discurso breve, mas que perturbou profundamente seus discípulos.
1.Os discípulos estavam comendo tranquilos quando, de repente, Jesus tomou o pão, o partiu e disse de maneira segura e espontânea:
2.“Tomai e comei; isto é o meu corpo”.
3.E pegando o cálice e dando graças, ofereceu-lhes, dizendo:
1.“Bebei dele todos; porque isto é meu sangue da aliança, que é derramado por muitos para o perdão dos pecados”.
2.Nunca na história alguém teve a coragem de falar sobre o próprio corpo e o próprio sangue dessa maneira.
3.E muito menos de dar um significado à própria morte como ele deu.
1.Não apenas usava o pão como símbolo do seu próprio corpo, mas o cordeiro imolado e morto que estava sendo servido naquela ceia, tipificava o seu próprio ser.
2.O “cordeiro de Deus” estava sendo oferecido como pão aos seus discípulos.
3.Ele disse também categoricamente que o vinho que estavam bebendo iria iniciar uma nova era, uma nova aliança.
4.O seu martírio não seria apenas uma execução humana,
5.mas tinha um papel eterno.
Todos: Seria um sangue derramado em favor de toda a humanidade.
1.Jesus não queria apenas aliviar o peso do passado sobre o presente.
2.Queria também introduzir a eternidade dentro do ser humano.
3.Por isso, disse aos seus discípulos que eles deveriam repetir a cena da última ceia em memória dele.
Todos:  “Fazei isto em memória de mim!”
1…. Cristo morreria no dia seguinte, sua memória seria esfacelada…
2.Entretanto, no discurso da última ceia, Ele fala com incrível espontaneidade sobre a morte.
3.Estava absolutamente certo de que venceria aquilo que os médicos jamais sonharam vencer…
Todos:  “Fazei isto em memória de mim!”
1.O pedido inusitado de Jesus para que fossem repetidos, em sua memória, os símbolos daquela ceia não foi esquecido.
2.Hoje milhões de cristãos, no mundo inteiro, tornam presentes os gestos e as palavras de Jesus.
3…. A morte, a única vencedora de todas as guerras, seria vencida pelo carpinteiro de Nazaré.
Todos:  “Fazei isto em memória de mim!”

(Texto do livro “O Mestre da Sensibilidade” do Dr. Augusto Cury,
cap. 4, Ed. Sextante, 2006)